AVISO: Este é um complemento com spoilers de meu texto sobre Hellblade: Senua's Sacrifice. Não leia se não quiser saber detalhes importantes sobre a trama e seu epílogo.
Pela segunda vez, recorro a essa versão do blog para tentar compreender uma cena de um jogo da Ninja Theory. A primeira vez aconteceu sete anos atrás, com Enslaved.
Hellblade lida com psicoses e a forma como a nossa sociedade, desde tempos primitivos, trata as pessoas acometidas por esse fenômeno. Durante suas pesquisas, a Ninja Theory entendeu que muitos pacientes aprendem a lidar com elementos visuais e auditivos que não existem no mundo real. É um processo de aceitação para algo que não possui cura. Em muitos casos, o estigma social é mais agressivo do que os próprios sintomas e o jogo trata sobre isso. Senua aceita que isso faz parte dela e entende que a escuridão, na verdade, foi algo imposto por seu pai, pelo medo dele, pelos preconceitos dele.
A grande jornada de Senua, na verdade, é uma forma da protagonista aceitar a morte de seu amado, brutalizado por invasores vikings. Ao longo da narrativa inteira, somos forçados a escutar as vozes na cabeça dela, incluindo a voz da escuridão (a voz do seu pai, na verdade). Quando a aceitação chega, Senua fez as pazes com suas vozes interiores, as vozes que a guiaram, as vozes que a orientaram ou confundiram nos momentos mais tensos.
E então ela se vira para nós. Ela olha no olho do jogador e nos convida para novas histórias. É uma sacada brilhante da desenvolvedora. Ela gira espontaneamente, nos encara e mantém o contato visual. Não há dúvidas. Nós, enquanto jogadores, somos uma dessas vozes, uma dessas forças que guiam e controlam Senua, porque foi exatamente isso que fizemos ao longo de horas de jogo. Estávamos dentro dela todo esse tempo e essa foi a melhor quebra de quarta parede dessa mídia que eu já vi.
